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Início » Doença de Chagas circula silenciosamente em bairros de Salvador
Cidades

Doença de Chagas circula silenciosamente em bairros de Salvador

Pesquisa da Fiocruz Bahia encontrou cães com anticorpos contra o parasita em Alto do Cabrito e Marechal Rondon e reforça a necessidade de ampliar a vigilância nas áreas urbanas.
Por Beatriz Melo15 de junho de 20265 Minutos de Leitura
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Uma pesquisa conduzida pela Fiocruz Bahia encontrou evidências de circulação silenciosa do Trypanosoma cruzi, parasita causador da doença de Chagas, em áreas urbanas de Salvador. Anticorpos contra o microrganismo foram identificados em cães residentes nos bairros Alto do Cabrito e Marechal Rondon.

A descoberta chama atenção porque os animais avaliados viviam em comunidades urbanas socialmente vulneráveis. Segundo os pesquisadores, os cães podem funcionar como sentinelas epidemiológicas, ajudando a identificar locais onde o parasita circula mesmo sem provocar casos aparentes ou sinais clínicos nos animais.

Os resultados, porém, são considerados preliminares. A presença de anticorpos demonstra que os cães tiveram contato com o T. cruzi em algum momento, mas não permite afirmar, por si só, que exista transmissão ativa da doença para moradores dessas localidades.

Publicado na revista científica Acta Tropica, o estudo analisou amostras de sangue de 290 cães dos bairros Alto do Cabrito, Marechal Rondon e Pau da Lima.

Nove animais apresentaram anticorpos contra o Trypanosoma cruzi

Os pesquisadores utilizaram testes Elisa desenvolvidos com antígenos recombinantes quiméricos para procurar anticorpos contra o parasita.

Em Alto do Cabrito e Marechal Rondon, nove cães apresentaram resultados positivos. Considerando os animais avaliados nesses dois bairros, a soroprevalência identificada foi de 5,1%.

A situação foi diferente em Pau da Lima. Todos os 113 cães incluídos na pesquisa naquele bairro tiveram resultados negativos.

A diferença entre localidades próximas sugere que a circulação do parasita pode ocorrer de maneira bastante localizada, influenciada pelas condições ambientais, sanitárias e sociais de cada comunidade.

Esse padrão, chamado de heterogeneidade geográfica, mostra que bairros de uma mesma cidade podem apresentar níveis diferentes de exposição. Por isso, os pesquisadores defendem que as estratégias de vigilância sejam direcionadas de acordo com as características de cada território.

Animais infectados não apresentavam sinais clínicos

Outro ponto observado foi a relação entre a idade dos cães e a presença dos anticorpos. Todos os animais com resultado positivo tinham entre 5 e 15 anos, com idade mediana de 8,5 anos.

O resultado pode indicar uma exposição acumulada ao longo da vida. Quanto mais velho o animal, maior pode ter sido o período de contato com ambientes onde o parasita ou os insetos vetores estavam presentes.

Nenhum dos nove cães soropositivos apresentava sinais clínicos aparentes. Esse cenário reforça o caráter silencioso da circulação, já que os animais podem ter contato com o parasita sem desenvolver sintomas facilmente perceptíveis.

Coordenada pelo pesquisador Fred Luciano Neves Santos, da Fiocruz Bahia, a investigação aponta que o acompanhamento de cães pode complementar as ações tradicionais de vigilância epidemiológica e ambiental.

Vulnerabilidade social pode favorecer exposição

As comunidades pesquisadas possuem áreas marcadas por vulnerabilidade social, deficiência de saneamento e condições ambientais que podem favorecer a presença de insetos transmissores ou de animais que participam do ciclo do Trypanosoma cruzi.

A transmissão vetorial acontece quando as fezes de um barbeiro infectado entram em contato com feridas na pele ou com as mucosas. A doença também pode ser transmitida por alimentos contaminados, da mãe para o bebê, por transfusões, transplantes ou acidentes laboratoriais.

A identificação de anticorpos nos cães não significa que eles transmitam diretamente a doença aos moradores. Os animais funcionam principalmente como indicadores de que o parasita esteve presente naquele ambiente.

Diante dos resultados, seria necessário ampliar as investigações, incluindo a busca por barbeiros, avaliações ambientais e exames em grupos humanos selecionados pelos serviços de saúde.

Pesquisa em Feira de Santana também encontrou infecções

Os achados em Salvador se somam a outro estudo recente da Fiocruz realizado em Feira de Santana. Durante uma iniciativa comunitária de triagem cardíaca, 1.115 pessoas passaram por exames e avaliações de cardiologistas com apoio de telemedicina.

Um modelo de estratificação de risco combinou informações clínicas, histórico epidemiológico e análise de eletrocardiogramas por inteligência artificial. A partir dessa avaliação, 112 participantes foram encaminhados para exames laboratoriais.

Entre as pessoas testadas, 13 apresentaram resultado positivo para infecção pelo Trypanosoma cruzi, correspondendo a uma positividade de 11,6% dentro do grupo selecionado para os testes.

É importante observar que esse percentual não representa toda a população de Feira de Santana, pois os exames laboratoriais foram realizados somente entre participantes previamente classificados com maior risco.

O estudo também verificou maior probabilidade de infecção entre pessoas que relataram já ter encontrado barbeiros dentro de casa. Parte dos casos positivos envolvia moradores que haviam migrado de regiões baianas historicamente consideradas endêmicas.

Resultados reforçam necessidade de vigilância

Embora não comprovem um foco ativo de transmissão humana em Salvador, os resultados indicam que o parasita pode estar circulando de forma discreta em determinados pontos da cidade.

Os pesquisadores defendem o fortalecimento da vigilância entomológica, epidemiológica e ambiental, principalmente em comunidades com condições favoráveis à presença dos vetores.

Moradores que encontrarem insetos semelhantes ao barbeiro não devem esmagá-los ou manipulá-los diretamente. O ideal é proteger as mãos, colocar o inseto em um recipiente fechado e comunicar a unidade de saúde ou o serviço municipal de vigilância para que seja feita a identificação.

A detecção precoce é essencial porque muitas pessoas infectadas permanecem durante anos sem sintomas. Em parte dos casos, a fase crônica pode provocar alterações cardíacas ou digestivas, tornando o diagnóstico e o acompanhamento médico fundamentais.

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Beatriz atua como redatora na produção de conteúdos voltados para Simões Filho e cidades da Região Metropolitana de Salvador. Seu trabalho envolve a apuração e a escrita de textos claros e informativos sobre cotidiano, oportunidades de emprego, eventos, serviços públicos e temas relevantes para os moradores da região.

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