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Novo remédio contra câncer de pâncreas reduz risco de morte em 60%

Daraxonrasib, vendido nos EUA como Rasonque, reduziu em 60% o risco de morte em estudo de fase 3 com 500 pacientes com doença metastática.
Por Nathália Santos27 de agosto de 20268 Minutos de Leitura
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Novo remédio contra câncer de pâncreas reduz risco de morte em 60%

A agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, aprovou nesta quarta-feira, 26 de agosto, o daraxonrasib, medicamento oral desenvolvido pela Revolution Medicines para o tratamento de determinados pacientes adultos com adenocarcinoma pancreático metastático, a forma mais comum de câncer de pâncreas.

Comercializado nos Estados Unidos com o nome Rasonque, o medicamento foi autorizado para adultos que já receberam pelo menos uma terapia sistêmica anterior ou que não são candidatos a um tratamento sistêmico com múltiplos medicamentos.

A decisão chama atenção principalmente pelos resultados do estudo clínico de fase 3 RASolute 302, que envolveu 500 pacientes. Entre os participantes tratados com daraxonrasib, a sobrevida global mediana chegou a 13,2 meses, praticamente o dobro dos 6,7 meses registrados entre os pacientes submetidos à quimioterapia padrão.

Segundo os dados divulgados pela FDA, o tratamento reduziu em aproximadamente 60% o risco de morte na comparação com a quimioterapia, um resultado considerado relevante em uma doença marcada historicamente por diagnóstico tardio, alta agressividade e poucas opções terapêuticas após a progressão do tumor.

Como funciona o novo medicamento

O daraxonrasib pertence a uma nova classe de medicamentos conhecida como inibidores RAS(ON).

As proteínas da família RAS funcionam como mecanismos de sinalização dentro das células. Quando determinadas alterações genéticas permanecem ativadas, elas podem estimular continuamente o crescimento, a divisão e a sobrevivência das células cancerígenas.

No câncer de pâncreas, essas alterações são particularmente importantes. A grande maioria dos adenocarcinomas pancreáticos apresenta alterações relacionadas à via RAS, especialmente em KRAS, um dos principais genes associados ao desenvolvimento da doença.

O Rasonque é descrito pela fabricante como um inibidor oral RAS(ON) multisseletivo, capaz de bloquear a sinalização promovida tanto por proteínas RAS mutadas quanto por determinadas formas não mutadas da proteína.

Uma característica importante da aprovação é que o medicamento pode ser utilizado dentro da indicação autorizada mesmo sem a identificação de uma mutação RAS específica no tumor, não sendo exigido pela FDA um teste diagnóstico complementar para selecionar o paciente.

Estudo acompanhou 500 pacientes

O RASolute 302 foi um estudo global, randomizado e multicêntrico de fase 3.

Os 500 participantes apresentavam adenocarcinoma pancreático metastático com progressão da doença após uma linha anterior de tratamento sistêmico.

Os pacientes foram distribuídos aleatoriamente entre dois grupos. Um recebeu daraxonrasib na dose de 300 mg por via oral uma vez ao dia. O outro recebeu uma das opções de quimioterapia consideradas padrão de tratamento pelos pesquisadores.

Os principais indicadores avaliados foram sobrevida global, sobrevida livre de progressão e resposta objetiva do tumor.

Sobrevida passa de 6,7 para 13,2 meses

O resultado que mais chamou atenção foi a diferença na sobrevida global.

Entre os pacientes tratados com daraxonrasib, a mediana foi de:

13,2 meses

No grupo submetido à quimioterapia:

6,7 meses

O chamado hazard ratio para morte foi de 0,40, correspondendo a uma redução de aproximadamente 60% no risco de morte durante o período analisado. O resultado apresentou significância estatística.

Isso não significa que todos os pacientes viverão 13,2 meses nem que o medicamento represente uma cura. A mediana indica o ponto em que metade dos pacientes analisados ainda estava viva.

Ainda assim, a diferença observada entre os dois grupos representa um avanço importante dentro da população estudada.

Tempo sem avanço da doença também aumentou

Outro resultado importante foi observado na chamada sobrevida livre de progressão, indicador que mede quanto tempo o paciente permanece vivo sem que exames demonstrem avanço significativo do tumor.

Com daraxonrasib, a mediana chegou a:

7,2 meses

Com quimioterapia:

3,6 meses

O risco de progressão da doença ou morte foi reduzido em aproximadamente 51%.

Na prática, o período sem agravamento detectável da doença também praticamente dobrou entre os pacientes que receberam o medicamento oral.

Tumores diminuíram em mais pacientes

A chamada taxa de resposta objetiva também favoreceu o novo tratamento.

Esse indicador mede a porcentagem de pacientes que apresenta redução significativa ou desaparecimento mensurável das lesões tumorais de acordo com critérios estabelecidos no estudo.

Segundo os dados confirmados pela FDA, a resposta objetiva foi registrada em aproximadamente:

30% dos pacientes tratados com daraxonrasib

contra:

11% dos pacientes submetidos à quimioterapia

A diferença também foi considerada estatisticamente significativa.

Os números reforçam que o benefício observado não ficou restrito apenas à sobrevida, mas também apareceu na resposta direta dos tumores ao tratamento.

Qualidade de vida entrou na avaliação

Além dos exames de imagem e dos indicadores de sobrevida, os pesquisadores acompanharam informações relatadas pelos próprios pacientes.

De acordo com a Revolution Medicines, o tempo mediano até uma deterioração significativa da condição geral de saúde e da qualidade de vida foi de 5,7 meses com Rasonque, contra 2,6 meses com quimioterapia.

A deterioração relacionada à dor também demorou mais para ocorrer.

O tempo mediano até piora clinicamente relevante da dor foi de 9,2 meses com daraxonrasib, frente a 3,8 meses entre os pacientes tratados com quimioterapia.

Esses dados são particularmente relevantes porque pacientes com câncer pancreático metastático frequentemente enfrentam sintomas intensos relacionados à própria doença e aos tratamentos.

Por que o câncer de pâncreas preocupa tanto

O adenocarcinoma pancreático é uma das formas mais agressivas de câncer.

Um dos principais problemas está no diagnóstico tardio. O tumor pode crescer durante algum tempo sem produzir sintomas específicos, fazendo com que muitos casos sejam identificados somente quando a doença já atingiu estruturas próximas ou outros órgãos.

Segundo informações citadas pela fabricante a partir de dados epidemiológicos dos Estados Unidos, aproximadamente 80% dos pacientes são diagnosticados depois que o câncer já se espalhou.

Na doença metastática, a taxa de sobrevida relativa em cinco anos permanece em torno de 3% nos Estados Unidos, segundo os dados mencionados no comunicado da empresa.

A FDA estima que entre 90% e 95% dos cerca de 67 mil novos casos anuais de câncer pancreático registrados nos Estados Unidos correspondam ao adenocarcinoma pancreático.

Efeitos colaterais também exigem acompanhamento

Apesar dos resultados positivos, o tratamento não é isento de riscos.

Entre as reações adversas mais frequentes estão:

  • erupções cutâneas;
  • diarreia;
  • inflamações e feridas na boca;
  • náuseas;
  • fadiga;
  • vômitos;
  • dor abdominal;
  • edema;
  • diminuição do apetite;
  • sangramentos.

Problemas dermatológicos foram especialmente frequentes. Nos estudos clínicos envolvendo pacientes com adenocarcinoma pancreático, algum tipo de toxicidade dermatológica ocorreu em cerca de 86% dos pacientes, sendo aproximadamente 10% dos casos classificados como grau 3.

A bula americana também inclui alertas para condições menos frequentes, porém potencialmente graves, como perfuração gastrointestinal e doença pulmonar intersticial ou pneumonite.

Por isso, a utilização depende de prescrição e acompanhamento médico especializado.

Apenas 2,9% interromperam definitivamente o tratamento por eventos adversos

Dados divulgados após a aprovação mostram ainda que 2,9% dos pacientes tratados com Rasonque interromperam definitivamente a terapia devido a reações adversas.

Reações adversas graves foram registradas em aproximadamente 30% dos pacientes tratados, incluindo casos de diarreia, febre, sepse, fadiga e hemorragia.

O percentual atualizado é relevante porque alguns relatos preliminares do estudo mencionavam números diferentes para interrupção do tratamento. Os dados da documentação utilizada na aprovação devem ser considerados a referência mais recente.

FDA acelerou análise do medicamento

Antes da aprovação, o daraxonrasib já havia recebido mecanismos regulatórios destinados a acelerar o desenvolvimento de terapias para doenças graves.

A FDA havia concedido ao medicamento as designações de Breakthrough Therapy e Orphan Drug, além de análise prioritária.

Em maio de 2026, a agência também autorizou que a Revolution Medicines iniciasse um programa de acesso expandido, permitindo que determinados pacientes elegíveis recebessem o medicamento ainda antes da aprovação comercial.

A análise regulatória foi concluída aproximadamente seis meses e meio antes da data originalmente prevista pela FDA.

Medicamento já pode ser prescrito nos Estados Unidos

Com a aprovação, o Rasonque passou a estar disponível sob prescrição nos Estados Unidos.

A dose recomendada pela FDA é de 300 mg por via oral uma vez ao dia, mantida até progressão da doença ou aparecimento de toxicidade considerada inaceitável.

Essa administração oral representa uma diferença prática em relação a diversos esquemas tradicionais de quimioterapia intravenosa.

E no Brasil?

A aprovação da FDA vale exclusivamente para os Estados Unidos.

Até o momento, não há anúncio público de aprovação do daraxonrasib pela Anvisa nas fontes oficiais consultadas. A situação regulatória brasileira precisa ser acompanhada pelo sistema oficial de registros da agência, que concentra informações sobre medicamentos autorizados no país.

A própria Revolution Medicines informa que, fora dos Estados Unidos, o medicamento ainda permanece em processo de avaliação regulatória. Na Europa, a Agência Europeia de Medicamentos iniciou uma revisão faseada destinada a acelerar a análise dos dados.

Uma eventual chegada ao Brasil dependerá de pedido de registro, avaliação de segurança, eficácia e qualidade pela Anvisa e, posteriormente, de questões comerciais e de incorporação aos diferentes sistemas de saúde.

Aprovação abre uma nova frente contra o câncer de pâncreas

O principal impacto da decisão está na possibilidade de atingir diretamente uma via molecular central para o crescimento do câncer pancreático.

Durante décadas, proteínas da família RAS estiveram entre os alvos mais difíceis da oncologia. O sucesso do daraxonrasib mostra que esse mecanismo pode ser explorado terapeuticamente em uma população ampla de pacientes com doença metastática.

Os resultados não significam que o câncer de pâncreas tenha se tornado curável. O cenário continua sendo grave, especialmente quando a doença é identificada em estágio avançado.

Porém, aumentar a sobrevida mediana de 6,7 para 13,2 meses, prolongar o período sem progressão e elevar a taxa de resposta tumoral representam mudanças relevantes em uma área onde os avanços terapêuticos historicamente ocorreram de forma limitada.

A Revolution Medicines também mantém estudos do daraxonrasib e de outros inibidores RAS em diferentes momentos do tratamento e em outros tipos de câncer, ampliando a expectativa sobre o papel dessa nova classe de medicamentos na oncologia.

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