Por que as mulheres brasileiras estão dizendo #EleNão


Vários milhões de mulheres no Brasil declararam uma guerra online contra a candidata à presidência Jair Bolsonaro, à frente do primeiro turno das eleições, que acontecerá no dia 7 de outubro.

Bolsonaro, que atualmente está se recuperando no hospital após ser esfaqueado durante uma manifestação política em 6 de setembro, é conhecido por fazer comentários ofensivos sobre mulheres, negros e minorias sexuais.

Desde que esfaqueou – por um homem aparentemente doente mentalmente oposto às suas opiniões políticas – ele subiu para 28% nas pesquisas de opinião e é visto como o candidato mais provável a disputar um segundo turno em 28 de outubro.

Vindo do relativamente liberal e conservador Partido Social Liberal, Bolsonaro é um dos políticos mais influentes do Brasil, com mais de 10,5 milhões de seguidores no Twitter, Facebook e Instagram juntos.

#Ele não

Mas na semana passada, várias celebridades femininas se juntaram a um esforço para neutralizar sua ascensão nas pesquisas, levando para suas contas de mídia social para postar usando a hashtag #EleNao (#NotHim).

Um post anti-Bolsonaro com a hashtag #EleNaoDireitos autorais da imagemFERNANDA PAES LEME / INSTAGRAM
Legenda da imagem Aatriz Fernanda Paes Leme se juntou a uma série de celebridades compartilhando posts anti-Bolsonaro com seus 3 milhões de seguidores no Instagram

A tag foi mencionada quase 200.000 vezes no total no Instagram sozinho na manhã de quinta-feira.

No Twitter, #EleNao teve mais de 193 mil menções entre sexta-feira, 14 de setembro e domingo, segundo acompanhamento de pesquisadores da FGV. Além disso, havia 152k tweets com a hashtag #EleNunca (#NeverHim).

A lista de mulheres postadas contra o candidato de extrema-direita inclui atrizes proeminentes, jornalistas e apresentadores de TV.

“#EleNao não é apenas política. É sobre moral”, a atriz Deborah Secco twittou para seus 3,4 milhões de seguidores.

Um post anti-Bolsonaro com a hashtag #EleNaoDireitos autorais da imagemCAMILA PITANGA / INSTAGRAM
Legenda da imagemVárias celebridades femininas se mobilizaram contra o Sr. Bolsonaro usando as mesmas hashtags

Sasha Meneghel, filha de uma das apresentadoras de TV infantis mais icônicas do Brasil – Xuxa Meneghel – compartilhou um post no Instagram Stories chamando seus 5 milhões de seguidores para ajudar a “mudar a cabeça dos eleitores indecisos”.

“A opção por Bolsonaro é um retrocesso perigoso”, diz ela.

Bolsonaro, veterano de 27 anos no Congresso, é rejeitado por 49% das eleitoras, mas tem apoio de 17%, segundo pesquisa do Datafolha divulgada em 10 de setembro.

A BBC News Brasil entrou em contato com o partido do candidato por suas opiniões sobre a campanha online contra o Bolsonaro, mas não quis comentar.

Observações ofensivas

O controverso político está apelando contra uma multa dada a ele por contar à congressista Maria do Rosário, do Partido dos Trabalhadores, de esquerda: “Eu não iria te estuprar porque você não merece isso”.

Bolsonaro também fez uma série de comentários que justificaram a disparidade salarial entre os sexos e o sexismo.

Uma mulher acende uma vela para o candidato presidencial Jair Bolsonaro depois que ele foi esfaqueado em 6 de setembro de 2018
Legenda da imagemApesar de seus comentários controversos, cerca de 17% das brasileiras apóiam Bolsonaro

Em 2016, ele disse durante uma entrevista com a apresentadora de TV Luciana Gimenez que ele não empregaria uma mulher “com o mesmo salário que um homem” porque as mulheres engravidam.

Ele subseqüentemente insistiu que ele foi mal interpretado e que ele estava apenas expressando a lógica dos empregadores.

“[A lei] já garante pagamento igual para homens e mulheres. Se a lei não estiver sendo cumprida, cabe aos tribunais resolver [as disputas]”, disse ele em entrevista à TV Globo no mês passado.

Bolsonaro também causou alvoroço ao falar sobre sua própria filha durante um evento público em abril de 2017. “Eu tenho cinco filhos. Eu tive quatro meninos, e no quinto, enfraqueci e uma garota veio”, disse ele na época.

Mas seus defensores do sexo feminino descartam essas controvérsias e se concentram nas outras propostas de Bolsonaro.

Conversa dura

Ex-capitão do Exército, ele está correndo em uma plataforma de liberalização das leis de armas e táticas repressivas contra a criminalidade urbana e o tráfico de drogas.

Soldados brasileiros realizam uma operação na favela do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, 21 de agosto de 2018Direitos autorais da imagemEPA
Imagelegion O Sr. Bosonaro tomou uma posição forte sobre o crime nas favelas

Ele também defende a reversão da ação afirmativa para os negros brasileiros e a reversão da legislação que aumenta as sentenças por assassinato de mulheres por causa de seu gênero (femicídio).

Ele disse que o “erro” da ditadura militar brasileira (1964-1985) foi “torturar, não matar” ativistas de esquerda e prometeu parar de financiar organizações de direitos humanos “porque os direitos humanos são um desserviço ao Brasil”.

Algumas de suas opiniões lhe deram casos judiciais. Ele foi acusado de racismo depois de ter feito comentários sobre os descendentes de escravos africanos em 2017. Na semana passada, a Suprema Corte o liberou dessas acusações.

Um manifestante segura uma placa durante um protesto de mulheres negras contra racismo e machismo, 25 de julho de 2018Direitos autorais da imagemREUTERS
Legenda da imagemUm manifestante em São Paulo segura uma placa com as palavras: “Minha raça, minha cor, meu orgulho”

Ele também foi multado por dizer em um programa de TV em 2011: “Nunca me passou pela cabeça que eu teria filhos gays, porque eles tinham uma boa educação”.

Apesar de dizer no passado que a homossexualidade foi causada por “falta de espancamento”, ele diz que não é um homofóbico e tem muitos adeptos gays.

Por que as mulheres votariam em Bolsonaro

Uma busca no Twitter usando a hashtag #mulherescombolsonaro (#womenwithbolsonaro) traz uma lista com “cinco razões para votar nele”.

Destaca a imagem do Sr. Bolsonaro como um “político limpo”, e aquele que não está associado à corrupção.

Também se refere à sua posição em favor dos cortes de impostos, liberalizando as leis de armas e diminuindo a idade a partir da qual as pessoas podem ir para a cadeia (atualmente com 18 anos de idade).

Milhares de foliões participam da 22ª Parada do Orgulho Gay, em São Paulo, Brasil, em 3 de junho de 2018Direitos autorais da imagemGETTY IMAGES
Image legionBolsonaro tem irritado muitos na comunidade gay com suas declarações sobre a homossexualidade

Elogia sua amarga oposição a uma proposta de ensinar às crianças em idade escolar sobre minorias sexuais e combater a homofobia (apelidada pejorativamente de “kit gay” por seus detratores).

“O Brasil acima de tudo, Deus acima de tudo”, diz o post.

#Bolsomitas

Na eleição fortemente polarizada do Brasil, a disposição dos partidários de Bolsonaro em defendê-lo e atacar seus críticos lhes rendeu o apelido pejorativo de “bolsas de estudo”.

Eles, por outro lado, referem-se ao seu candidato como “Bolsomito” – uma combinação das palavras Bolsonaro e “mito” (a lenda). Muitas mulheres que o apóiam se referem a si mesmas como “bolsomitas”.

Na semana passada, nesta ‘guerra online’, um grupo fechado do Facebook para mulheres contra o candidato, que cresceu para mais de 2 milhões de seguidores desde a sua criação em 30 de agosto, foi hackeado.

Uma captura de tela da conta do Twitter de Bolsonaro agradecendo a página hackeada por seu apoioDireitos autorais da imagemTWITTER / JAIR BOLSONARO
Legendada imagem A conta oficial do Bolsonaro no Twitter agradeceu a conta hackeada pelo seu apoio

Seu nome, “Women United Against Bolsonaro”, foi alterado para “Women WithBolsonaro” – levando o candidato a agradecer ao grupo em sua conta no Twitter, aparentemente confundindo a página hackeada com uma genuína.

A página foi restaurada desde então para seus administradores legítimos.

Enquanto isso, outra página fechada do Facebook chamada “Women With Bolsonaro (Official)” chegou a 850 mil seguidores na quinta-feira. Eles se descrevem como “mulheres de coragem que não precisam de feminismo e apoiam o capitão Bolsonaro para presidente”.

Bolsonaro permanece em tratamento intensivo, mas está respondendo bem ao tratamento e seu progresso é considerado “satisfatório” por seus médicos, de acordo com um boletim médico divulgado na terça-feira.

O esfaqueamento significa que ele permanecerá fora de ação por enquanto – mas sua popularidade e capacidade de estimular o debate online significam que o polêmico favorito provavelmente ficará fora da mente dos eleitores por muito tempo.

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