O salário está terminando antes do mês para uma parcela expressiva dos trabalhadores brasileiros. Uma pesquisa sobre saúde financeira mostra que 47% dos profissionais precisam recorrer a empréstimos, bicos, jornadas adicionais ou outras alternativas para conseguir pagar as despesas, revelando como o orçamento doméstico permanece pressionado mesmo entre pessoas que estão trabalhando.
O levantamento foi realizado entre 12 e 30 de junho, com 1.008 profissionais, incluindo trabalhadores sob regime CLT e PJ. Além dos 47% que buscam alguma forma de complementar a renda ou obter crédito, outros 6% chegam ao fim do mês sem dinheiro suficiente e sem recorrer a uma alternativa para cobrir o orçamento.
Somados, os números indicam que 53% dos entrevistados enfrentam dificuldades para terminar o mês com recursos suficientes para todas as despesas. O resultado permanece próximo do observado anteriormente: em 2025, 54% declaravam que o salário não era suficiente para cobrir os gastos, segundo dados divulgados pela Serasa Experian.
A situação ajuda a explicar por que o segundo emprego, os chamados “bicos”, horas adicionais de trabalho e o crédito passaram a integrar a rotina financeira de parte das famílias.
Alimentação e contas básicas são os maiores pesos no orçamento
O problema fica ainda mais claro quando são analisadas as despesas consideradas mais difíceis de acomodar dentro da renda mensal.
A alimentação aparece no topo da lista, mencionada por 78% dos entrevistados. Em seguida estão as contas essenciais de água, energia elétrica e gás, citadas por 72%.
Outros compromissos relevantes são:
- 78%: alimentação;
- 72%: água, luz e gás;
- 44%: financiamento de imóveis ou veículos;
- 43%: roupas, utilidades e outros itens de consumo;
- 33%: pagamento de empréstimos;
- 22%: despesas com estudos.
Os dados mostram que a pressão financeira não está concentrada apenas em compras consideradas adiáveis. Uma parcela relevante da renda é consumida justamente por despesas essenciais e compromissos já assumidos pelas famílias.
Isso reduz a margem disponível para formar uma reserva de emergência. Quando aparece uma despesa inesperada — como manutenção da casa, conserto do veículo ou outro gasto extraordinário — o trabalhador pode acabar recorrendo novamente ao crédito ou buscando uma fonte complementar de renda.
47% precisam de empréstimos, bicos ou outras alternativas
O percentual de 47% chama atenção porque não representa necessariamente trabalhadores desempregados ou sem renda. A pesquisa considera profissionais CLT e PJ que, mesmo trabalhando, precisam encontrar uma segunda fonte de recursos ou utilizar crédito para equilibrar o orçamento.
Essa diferença é importante. Ter uma renda mensal não significa, necessariamente, possuir folga financeira.
Quando os gastos fixos se aproximam ou superam a renda disponível, o trabalhador pode entrar em um ciclo no qual o dinheiro do mês seguinte já começa comprometido com parcelas, financiamentos e empréstimos contratados anteriormente.
Nesse cenário, o crédito pode funcionar como uma solução emergencial, mas precisa ser utilizado com cautela. Se a prestação de um novo empréstimo for incorporada permanentemente ao orçamento sem aumento correspondente da renda, a dificuldade de fechar as contas pode apenas ser transferida para os meses seguintes.
Bahia tem milhões de consumidores inadimplentes
Na Bahia, o problema ganha uma dimensão adicional. O material utilizado como base aponta 5,23 milhões de inadimplentes no estado, de acordo com dados do Mapa da Inadimplência da Serasa.
A mesma fonte relaciona o cenário ao elevado nível de informalidade no mercado de trabalho baiano. Segundo os dados apresentados, 52,8% dos trabalhadores da Bahia estavam na informalidade, percentual que colocava o estado entre os maiores índices do país.
Embora informalidade e dificuldade financeira não sejam fenômenos equivalentes, trabalhadores sem vínculo formal podem enfrentar maior oscilação de renda e menor previsibilidade mensal, especialmente em atividades cuja remuneração depende diretamente do volume de serviços realizados.
Problemas financeiros chegam ao ambiente de trabalho
As consequências não ficam restritas ao orçamento doméstico.
Segundo a pesquisa, 51% dos entrevistados relatam estresse durante o expediente relacionado às pendências financeiras. Outros 46% mencionam exaustão extrema ou cansaço físico.
O impacto também aparece em indicadores associados ao desempenho profissional:
- 35% afirmam enfrentar queda de concentração;
- 33% percebem redução no rendimento no trabalho;
- 26% relatam maior irritabilidade na convivência com colegas;
- 5% chegam a faltar ao trabalho.
Os números indicam que dificuldades financeiras podem ultrapassar a vida doméstica e afetar atenção, disposição e produtividade durante o expediente.
Insônia e irritabilidade também aparecem entre os relatos
Os efeitos continuam depois do horário de trabalho.
Entre os entrevistados que enfrentaram dificuldades financeiras nos últimos cinco anos, 44% relataram insônia e 44% citaram irritabilidade frequente na convivência familiar. O levantamento também registrou outros problemas relatados pelos participantes, reforçando a relação entre preocupação financeira e perda de bem-estar.
É importante observar que os dados da pesquisa apontam uma associação entre dificuldades financeiras e esses sintomas relatados pelos entrevistados. Eles, isoladamente, não permitem concluir que problemas de dinheiro sejam a causa exclusiva de todas essas condições.
Nova NR-1 amplia atenção aos riscos psicossociais relacionados ao trabalho
O debate sobre saúde mental e ambiente profissional ganhou ainda mais relevância em 2026 com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1.
A nova redação do capítulo sobre Gerenciamento de Riscos Ocupacionais entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e passou a incluir expressamente no gerenciamento das empresas os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.
Entre os exemplos estão situações ligadas à própria organização do trabalho, como sobrecarga, excesso de demandas, assédio e falta de suporte profissional.
Isso exige uma distinção: a dificuldade financeira pessoal do trabalhador, por si só, não significa automaticamente um risco ocupacional previsto na NR-1. A obrigação das empresas está relacionada à identificação, avaliação e gerenciamento de riscos psicossociais gerados ou agravados pelas condições e pela organização do trabalho.
Ainda assim, empresas podem adotar iniciativas adicionais de bem-estar financeiro, como educação financeira, orientação sobre endividamento e benefícios corporativos, especialmente porque dificuldades econômicas podem refletir no dia a dia profissional.
Pesquisa mostra problema que vai além do valor do salário
Os resultados indicam que a discussão sobre renda não pode ser limitada apenas ao salário nominal.
O que realmente determina a capacidade de uma família fechar o mês é a relação entre renda disponível, despesas essenciais, dívidas anteriores e compromissos financeiros recorrentes.
Um trabalhador pode receber mais e ainda assim enfrentar dificuldades se tiver grande parcela do orçamento comprometida. Da mesma forma, aumentos no custo de alimentação, energia, moradia e serviços podem reduzir rapidamente o poder de compra mesmo sem mudança na renda nominal.
Por isso, o dado de que praticamente metade dos entrevistados precisa recorrer a crédito ou trabalho adicional revela uma questão mais ampla: para muitos brasileiros, o emprego continua garantindo renda, mas não necessariamente tranquilidade financeira até o próximo pagamento.
A pesquisa foi realizada por painel online e apresenta margem de erro de 3,1 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%.
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