O mercado de trabalho brasileiro atravessa um período de desemprego relativamente baixo e avanço da renda média, mas a distribuição dos salários revela uma realidade bem mais desigual. Levantamento elaborado a partir dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) indica que 69,1% dos trabalhadores ocupados recebem até dois salários mínimos por mês.
Com o salário mínimo nacional fixado em R$ 1.621 em 2026, dois pisos correspondem a R$ 3.242 mensais. O valor oficial está em vigor desde 1º de janeiro, conforme decreto do governo federal.
Na prática, o percentual significa que aproximadamente sete em cada dez pessoas que trabalham estão concentradas em uma faixa de renda de até R$ 3.242, considerando trabalhadores formais e informais.
O levantamento citado foi elaborado pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, com base nos microdados da Pnad Contínua, principal pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre emprego, desemprego, informalidade e rendimento da população.
Maioria ganha menos do que a renda média sugere
Um dos pontos que mais chamam atenção é a diferença entre o rendimento médio divulgado pelas estatísticas do mercado de trabalho e aquilo que efetivamente chega ao bolso da maior parte da população ocupada.
Isso acontece porque a média salarial pode ser elevada pelos rendimentos mais altos. Trabalhadores que recebem salários muito superiores à maioria aumentam o resultado médio, mesmo quando uma parcela expressiva da população continua concentrada nas faixas inferiores de remuneração.
Os próprios dados oficiais do IBGE mostram que o rendimento real do trabalho vem avançando. No primeiro trimestre de 2026, por exemplo, o rendimento médio real habitual de todos os trabalhos chegou a R$ 3.722, contra R$ 3.662 no trimestre anterior e R$ 3.527 no mesmo período de 2025.
Já no trimestre móvel encerrado em abril, o rendimento médio foi estimado em R$ 3.732, crescimento de 5,3% sobre o mesmo período do ano anterior.
Portanto, embora a renda média esteja próxima ou até acima dos R$ 3,7 mil em alguns recortes recentes da pesquisa, a distribuição dos rendimentos mostra que a maioria dos trabalhadores permanece abaixo desse patamar.
Atenção ao número de 103 milhões de trabalhadores
Há uma diferença importante entre afirmar que o Brasil possui aproximadamente 103 milhões de pessoas ocupadas e dizer que 103 milhões recebem até R$ 3.242.
O percentual de 69,1% citado no levantamento se refere à parcela dos ocupados situada na faixa de até dois salários mínimos. Portanto, os 103 milhões representam aproximadamente o universo total da população ocupada, e não o número de pessoas que recebe até R$ 3.242.
Essa distinção é essencial para evitar uma interpretação equivocada dos dados.
Como referência, a Pnad já registrava 102,4 milhões de pessoas ocupadas no trimestre encerrado em julho de 2025, então recorde da série histórica.
Aplicando 69,1% sobre uma população ocupada próxima de 103 milhões, o contingente de trabalhadores dentro da faixa de até dois salários mínimos ficaria em torno de 71 milhões de pessoas, e não 103 milhões.
O que significa ganhar até dois salários mínimos em 2026?
Desde janeiro de 2026, o salário mínimo brasileiro é de R$ 1.621. Assim, os principais valores de referência são:
- 1 salário mínimo: R$ 1.621;
- 2 salários mínimos: R$ 3.242;
- 3 salários mínimos: R$ 4.863;
- 4 salários mínimos: R$ 6.484;
- 5 salários mínimos: R$ 8.105.
O reajuste do piso nacional também alterou benefícios previdenciários, assistenciais e outras referências vinculadas ao salário mínimo. Segundo documento oficial do governo, a atualização para R$ 1.621 deve alcançar aproximadamente 62 milhões de pessoas, considerando trabalhadores, aposentados, pensionistas e beneficiários assistenciais.
Mercado de trabalho melhorou, mas renda continua concentrada
Os números ajudam a explicar uma aparente contradição no mercado de trabalho brasileiro.
De um lado, indicadores como desemprego e rendimento médio apresentaram resultados favoráveis em comparação com anos anteriores. De outro, permanece elevada a proporção de trabalhadores que recebem salários relativamente baixos.
No trimestre encerrado em março de 2026, por exemplo, a taxa de desemprego foi de 6,1%, a menor já registrada para um trimestre encerrado em março desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012.
Já no trimestre encerrado em abril, a taxa ficou em 5,8%, enquanto cerca de 38,1 milhões de trabalhadores estavam na informalidade, o equivalente a 37,2% da população ocupada.
Esse contingente é relevante porque trabalhadores informais normalmente possuem menor proteção trabalhista e podem apresentar renda mais instável.
Informalidade continua sendo um desafio
A informalidade está diretamente ligada ao debate sobre a qualidade das ocupações disponíveis no país.
Um mercado de trabalho pode criar empregos e reduzir a taxa de desemprego sem necessariamente produzir uma melhora proporcional na renda de todas as famílias.
Trabalhadores por conta própria, empregados sem carteira assinada e outras modalidades informais podem enfrentar maior volatilidade dos rendimentos, ausência de férias remuneradas, 13º salário, FGTS e outras garantias associadas ao trabalho formal.
A desigualdade regional também amplia essas diferenças. Dados do IBGE já mostraram taxas de informalidade bastante distintas entre os estados brasileiros, com índices superiores a 50% em algumas unidades da Federação. No segundo trimestre de 2025, por exemplo, Maranhão registrava 56,2%, Pará 55,9% e Bahia 52,3%.
Salário médio não representa necessariamente o trabalhador típico
A concentração dos trabalhadores abaixo de dois salários mínimos também demonstra por que o rendimento médio deve ser interpretado com cuidado.
Imagine um grupo de dez trabalhadores. Se nove recebem R$ 2 mil e apenas um ganha R$ 20 mil, a remuneração média do grupo seria R$ 3,8 mil, mesmo que 90% das pessoas ganhem pouco mais da metade desse valor.
O exemplo simplificado ajuda a entender por que uma média nacional próxima de R$ 3,7 mil pode coexistir com uma maioria ganhando até R$ 3.242.
Por isso, indicadores sobre distribuição de renda, faixas salariais e mediana dos rendimentos ajudam a complementar a leitura da média.
Poder de compra é outro ponto central
Além do salário nominal, é necessário observar quanto esse dinheiro consegue comprar.
Despesas com alimentação, moradia, energia elétrica, transporte, medicamentos, educação e serviços básicos pesam proporcionalmente mais no orçamento das famílias de menor renda.
Um trabalhador que recebe R$ 3 mil mensais, por exemplo, pode comprometer uma parcela significativa da renda apenas com aluguel, alimentação e transporte nas principais regiões metropolitanas.
Por isso, aumentos reais do salário mínimo e da renda do trabalho são importantes, mas não eliminam automaticamente as dificuldades financeiras das famílias.
Desigualdade salarial continua no centro do debate
Os números revelam que a melhora recente de indicadores agregados não significa que os ganhos estejam distribuídos de maneira uniforme.
O Brasil possui um mercado de trabalho numeroso, com mais de 100 milhões de pessoas ocupadas, mas grande parte dessa população continua concentrada nas faixas inferiores de rendimento.
A fotografia que emerge dos microdados da Pnad é clara: aproximadamente sete em cada dez trabalhadores recebem até R$ 3.242 mensais.
Portanto, além da quantidade de vagas criadas e da taxa de desemprego, um dos principais desafios para os próximos anos será elevar a qualidade das ocupações e ampliar o rendimento real da parcela da população que hoje permanece concentrada nas menores faixas salariais.
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