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Início » Sete em cada dez trabalhadores ganham até R$ 3.242 no Brasil
Notícias

Sete em cada dez trabalhadores ganham até R$ 3.242 no Brasil

Levantamento com microdados da Pnad Contínua mostra concentração da renda nas faixas mais baixas, apesar do avanço recente dos rendimentos do trabalho.
Por Nathália Santos27 de agosto de 20266 Minutos de Leitura
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Sete em cada dez trabalhadores ganham até R$ 3.242 no Brasil

O mercado de trabalho brasileiro atravessa um período de desemprego relativamente baixo e avanço da renda média, mas a distribuição dos salários revela uma realidade bem mais desigual. Levantamento elaborado a partir dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) indica que 69,1% dos trabalhadores ocupados recebem até dois salários mínimos por mês.

Com o salário mínimo nacional fixado em R$ 1.621 em 2026, dois pisos correspondem a R$ 3.242 mensais. O valor oficial está em vigor desde 1º de janeiro, conforme decreto do governo federal.

Na prática, o percentual significa que aproximadamente sete em cada dez pessoas que trabalham estão concentradas em uma faixa de renda de até R$ 3.242, considerando trabalhadores formais e informais.

O levantamento citado foi elaborado pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, com base nos microdados da Pnad Contínua, principal pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre emprego, desemprego, informalidade e rendimento da população.

Maioria ganha menos do que a renda média sugere

Um dos pontos que mais chamam atenção é a diferença entre o rendimento médio divulgado pelas estatísticas do mercado de trabalho e aquilo que efetivamente chega ao bolso da maior parte da população ocupada.

Isso acontece porque a média salarial pode ser elevada pelos rendimentos mais altos. Trabalhadores que recebem salários muito superiores à maioria aumentam o resultado médio, mesmo quando uma parcela expressiva da população continua concentrada nas faixas inferiores de remuneração.

Os próprios dados oficiais do IBGE mostram que o rendimento real do trabalho vem avançando. No primeiro trimestre de 2026, por exemplo, o rendimento médio real habitual de todos os trabalhos chegou a R$ 3.722, contra R$ 3.662 no trimestre anterior e R$ 3.527 no mesmo período de 2025.

Já no trimestre móvel encerrado em abril, o rendimento médio foi estimado em R$ 3.732, crescimento de 5,3% sobre o mesmo período do ano anterior.

Portanto, embora a renda média esteja próxima ou até acima dos R$ 3,7 mil em alguns recortes recentes da pesquisa, a distribuição dos rendimentos mostra que a maioria dos trabalhadores permanece abaixo desse patamar.

Atenção ao número de 103 milhões de trabalhadores

Há uma diferença importante entre afirmar que o Brasil possui aproximadamente 103 milhões de pessoas ocupadas e dizer que 103 milhões recebem até R$ 3.242.

O percentual de 69,1% citado no levantamento se refere à parcela dos ocupados situada na faixa de até dois salários mínimos. Portanto, os 103 milhões representam aproximadamente o universo total da população ocupada, e não o número de pessoas que recebe até R$ 3.242.

Essa distinção é essencial para evitar uma interpretação equivocada dos dados.

Como referência, a Pnad já registrava 102,4 milhões de pessoas ocupadas no trimestre encerrado em julho de 2025, então recorde da série histórica.

Aplicando 69,1% sobre uma população ocupada próxima de 103 milhões, o contingente de trabalhadores dentro da faixa de até dois salários mínimos ficaria em torno de 71 milhões de pessoas, e não 103 milhões.

O que significa ganhar até dois salários mínimos em 2026?

Desde janeiro de 2026, o salário mínimo brasileiro é de R$ 1.621. Assim, os principais valores de referência são:

  • 1 salário mínimo: R$ 1.621;
  • 2 salários mínimos: R$ 3.242;
  • 3 salários mínimos: R$ 4.863;
  • 4 salários mínimos: R$ 6.484;
  • 5 salários mínimos: R$ 8.105.

O reajuste do piso nacional também alterou benefícios previdenciários, assistenciais e outras referências vinculadas ao salário mínimo. Segundo documento oficial do governo, a atualização para R$ 1.621 deve alcançar aproximadamente 62 milhões de pessoas, considerando trabalhadores, aposentados, pensionistas e beneficiários assistenciais.

Mercado de trabalho melhorou, mas renda continua concentrada

Os números ajudam a explicar uma aparente contradição no mercado de trabalho brasileiro.

De um lado, indicadores como desemprego e rendimento médio apresentaram resultados favoráveis em comparação com anos anteriores. De outro, permanece elevada a proporção de trabalhadores que recebem salários relativamente baixos.

No trimestre encerrado em março de 2026, por exemplo, a taxa de desemprego foi de 6,1%, a menor já registrada para um trimestre encerrado em março desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012.

Já no trimestre encerrado em abril, a taxa ficou em 5,8%, enquanto cerca de 38,1 milhões de trabalhadores estavam na informalidade, o equivalente a 37,2% da população ocupada.

Esse contingente é relevante porque trabalhadores informais normalmente possuem menor proteção trabalhista e podem apresentar renda mais instável.

Informalidade continua sendo um desafio

A informalidade está diretamente ligada ao debate sobre a qualidade das ocupações disponíveis no país.

Um mercado de trabalho pode criar empregos e reduzir a taxa de desemprego sem necessariamente produzir uma melhora proporcional na renda de todas as famílias.

Trabalhadores por conta própria, empregados sem carteira assinada e outras modalidades informais podem enfrentar maior volatilidade dos rendimentos, ausência de férias remuneradas, 13º salário, FGTS e outras garantias associadas ao trabalho formal.

A desigualdade regional também amplia essas diferenças. Dados do IBGE já mostraram taxas de informalidade bastante distintas entre os estados brasileiros, com índices superiores a 50% em algumas unidades da Federação. No segundo trimestre de 2025, por exemplo, Maranhão registrava 56,2%, Pará 55,9% e Bahia 52,3%.

Salário médio não representa necessariamente o trabalhador típico

A concentração dos trabalhadores abaixo de dois salários mínimos também demonstra por que o rendimento médio deve ser interpretado com cuidado.

Imagine um grupo de dez trabalhadores. Se nove recebem R$ 2 mil e apenas um ganha R$ 20 mil, a remuneração média do grupo seria R$ 3,8 mil, mesmo que 90% das pessoas ganhem pouco mais da metade desse valor.

O exemplo simplificado ajuda a entender por que uma média nacional próxima de R$ 3,7 mil pode coexistir com uma maioria ganhando até R$ 3.242.

Por isso, indicadores sobre distribuição de renda, faixas salariais e mediana dos rendimentos ajudam a complementar a leitura da média.

Poder de compra é outro ponto central

Além do salário nominal, é necessário observar quanto esse dinheiro consegue comprar.

Despesas com alimentação, moradia, energia elétrica, transporte, medicamentos, educação e serviços básicos pesam proporcionalmente mais no orçamento das famílias de menor renda.

Um trabalhador que recebe R$ 3 mil mensais, por exemplo, pode comprometer uma parcela significativa da renda apenas com aluguel, alimentação e transporte nas principais regiões metropolitanas.

Por isso, aumentos reais do salário mínimo e da renda do trabalho são importantes, mas não eliminam automaticamente as dificuldades financeiras das famílias.

Desigualdade salarial continua no centro do debate

Os números revelam que a melhora recente de indicadores agregados não significa que os ganhos estejam distribuídos de maneira uniforme.

O Brasil possui um mercado de trabalho numeroso, com mais de 100 milhões de pessoas ocupadas, mas grande parte dessa população continua concentrada nas faixas inferiores de rendimento.

A fotografia que emerge dos microdados da Pnad é clara: aproximadamente sete em cada dez trabalhadores recebem até R$ 3.242 mensais.

Portanto, além da quantidade de vagas criadas e da taxa de desemprego, um dos principais desafios para os próximos anos será elevar a qualidade das ocupações e ampliar o rendimento real da parcela da população que hoje permanece concentrada nas menores faixas salariais.

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Nathália Santos
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Nathália Santos é consultora de carreiras especializada no setor de petróleo, gás e energia. Com mais de 10 anos de experiência, Nathália tem ajudado profissionais a navegar nas complexidades do mercado de trabalho energético.

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