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El Niño pode fazer de 2027 o ano mais quente já registrado; conheça o fenômeno

Fenômeno ganha força no Pacífico e projeção aponta temperatura global próxima de 1,7°C acima do nível pré-industrial em 2027
Por Nathália Santos26 de agosto de 20267 Minutos de Leitura
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El Niño pode fazer de 2027 o ano mais quente já registrado; conheça o fenômeno

O El Niño de 2026 está se intensificando no Oceano Pacífico e pode abrir caminho para um novo recorde de temperatura global em 2027. A combinação entre o fenômeno climático e o aquecimento de longo prazo provocado pelo aumento dos gases de efeito estufa cria um cenário de atenção para ondas de calor, secas, chuvas extremas e outros eventos severos em diferentes regiões do planeta.

Uma projeção elaborada pelo Carbon Brief estima que a temperatura média global em 2027 poderá ficar em torno de 1,71°C acima da média do período pré-industrial de 1850 a 1900. No cenário central analisado pelo site especializado, a probabilidade de 2027 estabelecer um novo recorde de calor chega a 92%.

A previsão ainda apresenta incertezas e não significa que o recorde esteja garantido. A intensidade máxima alcançada pelo El Niño, sua duração e a velocidade com que o fenômeno perderá força serão determinantes para o comportamento das temperaturas globais ao longo do próximo ano.

El Niño de 2026 está ficando mais forte

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou no fim de julho que um El Niño forte está em desenvolvimento e deve continuar se intensificando durante o período de agosto a outubro de 2026. O fenômeno deve alterar padrões de chuva e elevar a probabilidade de temperaturas acima da média em grande parte do mundo.

Os modelos reunidos pela organização indicavam uma anomalia média da temperatura da superfície do mar próxima de 2,9°C na região de monitoramento do Pacífico tropical durante agosto, setembro e outubro, com possibilidade de intensificação até novembro.

No Brasil, o boletim mais recente do Painel El Niño 2026-2027, produzido por órgãos como Cemaden, INMET, INPE e ANA, apontou probabilidade de permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027 e possibilidade elevada de um episódio de intensidade muito forte.

Por que o maior impacto pode aparecer apenas em 2027?

O El Niño corresponde ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Essa mudança interfere na circulação atmosférica e redistribui calor e umidade pelo planeta.

O impacto na temperatura média global, porém, não acontece necessariamente no mesmo momento em que o fenômeno atinge sua maior intensidade.

Historicamente, existe uma defasagem de aproximadamente três meses entre o pico do El Niño no Pacífico e sua influência máxima sobre a temperatura da superfície terrestre. Episódios anteriores ajudaram a produzir recordes de temperatura no ano seguinte ao desenvolvimento do fenômeno, como ocorreu nos ciclos associados a 1997-1998, 2015-2016 e 2023-2024.

Caso o atual El Niño alcance seu pico no fim de 2026, grande parte do efeito adicional sobre a temperatura global poderá aparecer justamente durante 2027.

Projeção aponta aquecimento de até 1,71°C

O modelo utilizado pelo Carbon Brief considera a relação histórica entre o comportamento do El Niño e as variações da temperatura global.

A estimativa central coloca 2027 em aproximadamente 1,71°C acima da média pré-industrial, enquanto o intervalo de projeção de 90% varia aproximadamente entre 1,49°C e 1,93°C.

Segundo a análise:

  • a chance de 2027 estabelecer um novo recorde global de temperatura é estimada em 92%;
  • a probabilidade de o ano terminar acima de 1,5°C em relação ao período pré-industrial chega a 94%;
  • considerando 2026 e 2027 juntos, há aproximadamente 93% de chance de pelo menos um dos dois anos quebrar o recorde global.

As probabilidades são projeções estatísticas, e não previsões determinísticas. Elas podem mudar conforme novos dados sobre o Pacífico e a temperatura global forem incorporados.

2023, 2024 e 2025 já colocaram o planeta em um patamar elevado

O El Niño atual não está começando a partir de uma situação climática comum.

Dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus mostram que 2024 continua como o ano mais quente já registrado, enquanto 2023 aparece em segundo lugar e 2025 terminou como o terceiro mais quente. Os três anos formaram, portanto, a sequência mais quente já observada nos registros globais.

Outro sinal importante é que a média das temperaturas de 2023 a 2025 ficou mais de 1,5°C acima do nível pré-industrial, segundo o Copernicus. Foi a primeira vez que um intervalo de três anos alcançou esse patamar.

Esse cenário ajuda a explicar por que um El Niño forte pode gerar efeitos adicionais expressivos: o fenômeno passa a atuar sobre uma temperatura de fundo já elevada pelo aquecimento global de longo prazo.

Superar 1,5°C em um ano não significa romper imediatamente o Acordo de Paris

A marca de 1,5°C costuma ser associada ao principal objetivo climático do Acordo de Paris, mas existe uma diferença importante.

Um único ano com temperatura média acima de 1,5°C em relação ao período pré-industrial não representa, isoladamente, o rompimento definitivo da meta internacional.

O limite se refere ao aquecimento climático sustentado por um período prolongado, e não às oscilações de um único calendário. Fenômenos naturais, como El Niño e La Niña, podem fazer determinados anos ficarem temporariamente acima ou abaixo da tendência de longo prazo.

Ainda assim, a ocorrência cada vez mais frequente de anos próximos ou acima desse nível funciona como alerta sobre a velocidade do aquecimento.

El Niño pode intensificar extremos climáticos

O fenômeno não significa simplesmente que todas as regiões ficarão igualmente mais quentes.

O El Niño modifica grandes sistemas de circulação atmosférica e pode provocar efeitos distintos de acordo com o continente e a época do ano.

A OMM alerta que o episódio atual tende a aumentar a ocorrência de temperaturas acima da média e modificar significativamente os padrões de precipitação global. Em algumas regiões, isso pode significar chuvas mais intensas; em outras, maior risco de estiagem.

O impacto também ocorre sobre agricultura, disponibilidade de água, geração de energia, saúde pública e ocorrência de incêndios florestais.

O que o El Niño pode provocar no Brasil

No território brasileiro, os efeitos tradicionalmente são diferentes entre as regiões.

O INMET explica que episódios de El Niño costumam favorecer menos chuva no Norte e Nordeste e maior frequência ou volume de precipitação na Região Sul. Em julho, o instituto já identificava padrões atmosféricos associados ao fenômeno influenciando as chuvas no Sul.

O Painel El Niño 2026-2027 indica que o segundo semestre poderá ser marcado por temperaturas acima da média em grande parte do país.

Entre os principais riscos estão:

  • Sul: chuva acima da média, com aumento do risco de tempestades, enchentes e problemas para determinadas culturas agrícolas;
  • Norte e Nordeste: possibilidade de precipitações abaixo da média e agravamento do déficit hídrico;
  • Centro-Oeste: calor mais intenso, baixa umidade e maior risco de incêndios;
  • Sudeste: temperaturas elevadas e possibilidade de ondas de calor mais frequentes.

O Cemaden também aponta que as ondas de calor vêm se tornando mais frequentes no Brasil nas últimas décadas e podem ganhar intensidade adicional durante anos de El Niño.

Agricultura pode sentir efeitos diferentes em cada região

O comportamento das chuvas será especialmente importante para o agronegócio.

No Centro-Oeste, condições mais secas podem favorecer temporariamente operações de colheita do milho segunda safra, algodão e cana-de-açúcar. Por outro lado, temperaturas elevadas e redução da umidade podem prejudicar pastagens e dificultar a preparação da safra seguinte.

No Sul, a maior disponibilidade de água pode favorecer culturas de inverno, mas excesso de precipitação também aumenta o risco de doenças fúngicas, atrasos na colheita e dificuldades de manejo.

Já no Norte e Nordeste, chuvas abaixo da média podem reduzir a umidade do solo e pressionar pastagens, agricultura familiar e disponibilidade de água.

Recorde de 2027 ainda depende da evolução do Pacífico

Apesar dos números elevados, ainda há margem relevante de incerteza.

Previsões realizadas com vários meses de antecedência são sensíveis à intensidade final do El Niño e ao momento em que o fenômeno começará a enfraquecer.

Mesmo assim, o cenário central aponta para um risco elevado de novo recorde.

O Carbon Brief estima que 2026 termine próximo de 1,51°C acima do nível pré-industrial, resultado que colocaria o ano como o segundo mais quente da série histórica, pouco abaixo de 2024. A mesma análise calcula uma chance de cerca de 35% de 2026 superar o recorde atual.

Se o El Niño mantiver a intensidade projetada até o fim do ano, porém, 2027 poderá concentrar o impacto mais forte do fenômeno sobre a temperatura média global.

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Nathália Santos é consultora de carreiras especializada no setor de petróleo, gás e energia. Com mais de 10 anos de experiência, Nathália tem ajudado profissionais a navegar nas complexidades do mercado de trabalho energético.

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