O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender, nesta sexta-feira (18), mudanças profundas no mercado de apostas online no Brasil. Durante discurso em Guarulhos, na Grande São Paulo, Lula afirmou que, se depender de sua vontade, pretende acabar com as chamadas bets no país.
Ao abordar o tema, o presidente associou as apostas aos problemas de endividamento e dependência em jogos. Segundo Lula, a preocupação central está nos efeitos que a atividade pode provocar sobre famílias e, principalmente, sobre pessoas que desenvolvem comportamento compulsivo.
A declaração ocorre enquanto o governo discute novas medidas para limitar o funcionamento de jogos e apostas online. Segundo a Reuters, integrantes do governo estudam restrições aos cassinos online, enquanto detalhes da iniciativa ainda estão sendo definidos.
Clubes entram no debate sobre eventual proibição
O discurso também atingiu diretamente o futebol brasileiro. Lula afirmou que pretende conversar com dirigentes de clubes que se posicionaram contra medidas capazes de restringir as atividades das empresas de apostas.
Clubes e entidades ligadas ao setor argumentam que a redução da presença das bets pode afetar contratos de patrocínio e outras fontes de receita. A discussão ganhou força porque casas de apostas passaram a ocupar espaço relevante nas camisas, placas publicitárias, transmissões e propriedades comerciais do futebol.
Reportagens publicadas nesta semana apontam que dirigentes e entidades do setor alertaram para perdas financeiras significativas caso sejam adotadas restrições amplas aos patrocínios e à publicidade. Estimativa divulgada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias aponta para potencial redução de até R$ 9 bilhões em investimentos até 2029, cálculo contestado por organizações favoráveis a regras mais rígidas.
Lula rebate argumento sobre dependência financeira do futebol

Em Guarulhos, Lula contestou a ideia de que o futebol brasileiro dependa das empresas de apostas para sobreviver. O presidente lembrou conquistas históricas de clubes ocorridas antes da expansão das bets no país.
O argumento aparece justamente quando grandes equipes possuem contratos importantes com empresas do segmento. Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo mostra que o número de clubes da Série A com bets no principal espaço das camisas caiu de 18, em 2025, para 13 em 2026, embora alguns dos contratos restantes tenham valores maiores.
Esse cenário ajuda a explicar a dimensão econômica do debate: uma eventual mudança nas regras não atingiria apenas as operadoras, mas também contratos comerciais já incorporados aos orçamentos de diversas equipes.
Bets já funcionam sob regulamentação federal
O debate ocorre pouco mais de um ano após a entrada em funcionamento do mercado federal regulamentado.
As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas pela Lei nº 13.756/2018, enquanto a Lei nº 14.790/2023 ampliou e regulamentou o mercado, incluindo jogos online. Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente dentro do sistema federal.
As plataformas autorizadas precisam utilizar endereços terminados em .bet.br e ficam submetidas às normas de fiscalização, prevenção a irregularidades e proteção dos apostadores.
Em setembro de 2026, o Ministério da Fazenda também publicou novas regras voltadas à identificação e repressão de transações financeiras relacionadas a operadores ilegais. A agenda regulatória do governo prevê ainda revisões nas regras de autorização, publicidade e fiscalização do setor.
Proibição, restrições ou manutenção das regras
Apesar das declarações públicas de Lula, o formato de qualquer nova medida ainda é objeto de discussão.
Uma possibilidade noticiada pela Reuters envolve restringir cassinos online sem necessariamente alcançar as apostas esportivas e seus patrocínios. Outras discussões citadas pela imprensa incluem limitações à publicidade e regras específicas para produtos considerados de maior risco.
Do outro lado, empresas e clubes defendem que operadores legalizados continuem funcionando sob fiscalização e argumentam que uma proibição pode aumentar a participação de plataformas clandestinas. Já organizações contrárias à expansão das bets sustentam que os impactos sociais e financeiros justificam regras mais severas.
O próximo ponto decisivo será a definição concreta do governo sobre quais modalidades pretende atingir e qual instrumento jurídico será apresentado. Até lá, a fala de Lula amplia um debate que envolve saúde pública, arrecadação, empresas de apostas e uma das principais fontes recentes de patrocínio do futebol brasileiro.
