A construção da nova rodoviária de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, tornou-se alvo de questionamentos sobre a aplicação de recursos públicos após o início das intervenções no terreno, em 2024, durante a gestão do ex-prefeito Diógenes Tolentino Oliveira, conhecido como Dinha. O empreendimento, planejado para melhorar o transporte intermunicipal, acumulou atrasos e passou a ser discutido na Câmara Municipal e na Justiça.
A documentação disponível mostra que o projeto foi objeto de autorizações de financiamento desde 2019. Em 2024, a própria Prefeitura incluiu o início da implantação do terminal entre as realizações de sua gestão, com investimento previsto de aproximadamente R$ 16 milhões.
Posteriormente, reportagens identificaram um contrato de R$ 21.552.614,99, cujo valor teria aumentado para cerca de R$ 23,7 milhões após aditivo. A diferença entre os valores contratados, os serviços executados e os recursos efetivamente pagos tornou-se o principal ponto de controvérsia.
Prefeitura confirmou início da rodoviária em documento oficial
O Relatório Anual de Gestão de 2024 da Prefeitura de Simões Filho confirma que a administração municipal iniciou a primeira etapa de implantação do terminal rodoviário naquele ano.
Na página 81, o documento apresenta o empreendimento como parte dos investimentos em infraestrutura, informa a previsão de aproximadamente R$ 16 milhões e exibe uma representação arquitetônica da futura rodoviária.
Na página 99, a Prefeitura volta a mencionar a construção, localizada às margens da BR-324, e informa investimento superior a R$ 16 milhões.
Esses registros comprovam que a obra fazia parte do planejamento e das realizações divulgadas oficialmente pelo município. Entretanto, o relatório não apresenta, nesses trechos, uma relação individualizada dos pagamentos realizados pela terraplanagem.
Projeto de financiamento começou antes de 2024
A construção da rodoviária já era discutida oficialmente em 2019.
Em 21 de novembro daquele ano, a Câmara Municipal aprovou o Projeto de Lei nº 020/2019, que autorizava uma operação de crédito de até R$ 8,5 milhões junto à Caixa Econômica Federal.
Desse montante, R$ 5 milhões estavam destinados à construção do terminal rodoviário. Outros R$ 3,5 milhões seriam utilizados para aquisição de veículos, máquinas e equipamentos.
Em 6 de julho de 2021, os vereadores aprovaram, por unanimidade, o Projeto de Lei nº 023/2021, autorizando uma nova operação de crédito, dessa vez junto ao Banco do Brasil.
A proposta abrangia a implantação da rodoviária, levantamentos topográficos e aquisição de equipamentos municipais.
As autorizações, por si só, não comprovam que todos os recursos foram liberados, nem que os diferentes financiamentos foram integralmente utilizados na obra.
Contrato de R$ 21,5 milhões passou a ser questionado
Em maio de 2026, o Fala Simões Filho noticiou a existência de uma ação popular envolvendo o contrato nº 0172/2024, relacionado à construção da nova rodoviária.
Segundo as informações divulgadas, o contrato original foi firmado pelo valor de R$ 21.552.614,99.
Um aditivo superior a R$ 2,2 milhões teria elevado o montante global para aproximadamente R$ 23,7 milhões.
A ação questiona a correspondência entre os recursos envolvidos e a execução física do empreendimento, solicitando esclarecimentos administrativos e apuração técnica.
É importante destacar que o valor total de um contrato não representa necessariamente dinheiro já desembolsado. Os pagamentos dependem da execução, medição e liquidação das etapas contratadas.
A existência da ação judicial também não significa que as suspeitas tenham sido comprovadas.
Quanto foi gasto na terraplanagem?
A discussão sobre os gastos ganhou força em abril de 2026, quando o vereador Carlos Neto questionou publicamente a aplicação dos recursos destinados à rodoviária.
Segundo declaração divulgada pelo portal Classe Política, aproximadamente R$ 5 milhões teriam sido utilizados durante 2024, último ano da administração Dinha.
O parlamentar apresentou imagens do terreno e questionou a relação entre os valores mencionados e o avanço físico do empreendimento.
A estimativa, entretanto, não foi acompanhada, na documentação analisada para esta reportagem, de uma conciliação completa entre notas fiscais, medições e pagamentos bancários.
Em agosto de 2026, o ex-secretário municipal de Infraestrutura Gabriel Marques apresentou números diferentes durante entrevista à Rádio Simões Filho FM 87,9.
De acordo com o ex-gestor, os serviços executados até dezembro de 2024 corresponderiam a aproximadamente R$ 3,5 milhões a R$ 4 milhões.
Gabriel afirmou ainda que a execução acumulada estaria próxima de R$ 7 milhões em agosto de 2026, contestando a interpretação de que todo o valor contratual já teria sido gasto.
As divergências reforçam a necessidade de apresentação dos documentos contábeis e técnicos para estabelecer quanto foi efetivamente pago até o encerramento da administração anterior e quanto foi executado posteriormente.
Ex-secretário apontou dificuldades no terreno
Na mesma entrevista, Gabriel Marques atribuiu parte das dificuldades da obra às condições encontradas durante a preparação do terreno.
Segundo o ex-secretário, as equipes identificaram interferências relacionadas a uma adutora, presença de entulho e características do solo que exigiram adequações nos serviços de movimentação de terra e drenagem.
Ele também defendeu a localização escolhida, próxima à BR-324, argumentando que o planejamento considerou o fluxo de passageiros, o crescimento urbano e possíveis alternativas futuras de integração do transporte público.
Essas explicações representam a versão apresentada pelo ex-integrante da administração municipal.
A comprovação dos obstáculos técnicos e de seus impactos financeiros depende da análise dos projetos de engenharia, relatórios de fiscalização, eventuais justificativas de aditivos e medições dos serviços.
Obra foi mostrada sem conclusão em 2025
O atraso da rodoviária ganhou repercussão na imprensa baiana ao longo de 2025.
Em maio daquele ano, o portal SOMOB publicou reportagem apontando que o terreno apresentava movimentação de terra, mas não havia estrutura concluída para receber passageiros.
Em 30 de setembro de 2025, o programa Balanço Geral BA, da Record, também abordou a situação. A reportagem mostrou o espaço sem trabalhadores e registrou reclamações sobre a falta de conclusão do empreendimento.
As imagens e reportagens documentam períodos de inatividade e ausência de entrega do terminal. No entanto, não substituem os documentos administrativos necessários para determinar a situação contratual exata da obra em outubro de 2026.
Os valores envolvidos na rodoviária
| Informação | Valor | Natureza |
|---|---|---|
| Financiamento autorizado em 2019 para a rodoviária | R$ 5 milhões | Autorização legislativa |
| Investimento previsto no relatório de 2024 | Cerca de R$ 16 milhões | Planejamento oficial |
| Contrato nº 0172/2024 | R$ 21,55 milhões | Valor divulgado em ação judicial |
| Contrato após aditivo | Cerca de R$ 23,7 milhões | Valor relatado pela imprensa |
| Gasto de 2024 apontado por Carlos Neto | Cerca de R$ 5 milhões | Denúncia parlamentar |
| Execução de 2024 indicada por Gabriel Marques | R$ 3,5 milhões a R$ 4 milhões | Declaração do ex-secretário |
| Execução acumulada indicada em agosto de 2026 | Cerca de R$ 7 milhões | Declaração do ex-secretário |
Os valores não podem ser somados, pois abrangem conceitos distintos, incluindo autorizações, estimativas, contratos e declarações sobre execução financeira.
Questionamentos chegaram à Justiça
A controvérsia passou também ao campo judicial.
Segundo reportagem publicada em 25 de maio de 2026, uma ação popular apresentada à Vara da Fazenda Pública questionou a execução do contrato e o aditivo relacionado ao empreendimento.
Entre os pontos noticiados estão pedidos de apresentação de documentação administrativa e realização de análise técnica para verificar a correspondência entre os serviços executados e os valores envolvidos.
A apuração não identificou decisão judicial definitiva que comprove superfaturamento, desvio de recursos ou responsabilidade pessoal do ex-prefeito Dinha.
Até que haja comprovação documental ou decisão judicial, as acusações devem ser tratadas como questionamentos em investigação, e não como irregularidades demonstradas.
O que ainda precisa ser esclarecido
A principal dúvida envolve a execução financeira do contrato.
Para estabelecer o valor efetivamente desembolsado, é necessário confrontar os empenhos, liquidações, ordens de pagamento, notas fiscais e medições de engenharia.
Também precisam ser esclarecidos o volume de terra movimentado, os serviços de drenagem executados, os eventuais custos adicionais decorrentes das condições do terreno e a situação atual do cronograma.
Outro ponto fundamental é identificar quais despesas foram realizadas até 31 de dezembro de 2024, quando terminou o mandato de Dinha, e quais ocorreram a partir de 2025, sob a administração seguinte.
A separação desses períodos é indispensável para atribuir corretamente a responsabilidade administrativa por cada etapa.
A reportagem não dispõe de manifestação atual e específica do ex-prefeito, da empresa contratada ou da Prefeitura sobre todos os questionamentos apresentados. Seus posicionamentos são relevantes para completar a apuração e garantir o contraditório.
Uma obra milionária ainda cercada de perguntas
A nova rodoviária foi apresentada como um empreendimento estratégico para melhorar a mobilidade de Simões Filho e oferecer condições adequadas aos passageiros que utilizam o transporte intermunicipal.
Os registros oficiais confirmam o planejamento e o início da implantação em 2024. As reportagens posteriores documentam atrasos, períodos de paralisação e questionamentos sobre o resultado das intervenções.
O que ainda não está demonstrado por uma prestação de contas consolidada é quanto dinheiro foi efetivamente pago em cada gestão, quais serviços foram realizados e qual o custo específico da terraplanagem.
A resposta depende da apresentação e do confronto dos documentos técnicos e financeiros do empreendimento.
Até lá, o caso permanece como uma questão relevante de transparência na administração dos recursos públicos de Simões Filho.
