O Vasco da Gama entrou em uma etapa decisiva do processo para encontrar um novo controlador para seu futebol. A Justiça do Rio de Janeiro autorizou a abertura do processo competitivo para a venda de 90% das ações da nova Sociedade Anônima do Futebol (SAF) e determinou que as propostas sejam apresentadas em audiência marcada para 25 de setembro, às 14h.
A decisão foi assinada pela juíza Simone Gastesi Chevrand, da 4ª Vara Empresarial da Comarca da Capital. O procedimento envolve a chamada UPI Equity, estrutura criada dentro da recuperação judicial para reunir os ativos e direitos ligados ao futebol e permitir a transferência para uma nova SAF.
O movimento pode representar uma das maiores operações recentes envolvendo uma SAF no futebol brasileiro. A proposta que atualmente serve como referência supera R$ 3 bilhões quando considerados investimentos, pagamento de obrigações, cobertura de déficits e aportes previstos para o futebol e infraestrutura.
R$ 3 bilhões não são apenas o preço de compra da SAF
Apesar de o negócio ser frequentemente tratado como uma “SAF de R$ 3 bilhões”, o valor exige uma explicação.
A cifra não representa necessariamente um cheque de R$ 3 bilhões pago diretamente ao Vasco pela aquisição de 90% das ações. Ela corresponde ao conjunto de compromissos financeiros previstos no acordo de investimento discutido com o empresário Marcos Lamacchia, por meio da Almirante Participações.
Segundo os valores divulgados durante o processo, o pacote ultrapassa R$ 3 bilhões ao considerar o pagamento de dívidas ligadas à recuperação judicial e obrigações tributárias, recursos para cobrir déficits de caixa durante os próximos anos e investimentos direcionados ao futebol e aos centros de treinamento.
Entre as projeções apresentadas estão aproximadamente R$ 1,3 bilhão em dívidas, além de cerca de R$ 1,5 bilhão para cobertura do déficit de caixa projetado para cinco anos. Também existem compromissos específicos para futebol e infraestrutura.
É justamente a soma dessas obrigações que leva o pacote financeiro para a casa dos bilhões.
Marcos Lamacchia larga como principal interessado
Marcos Lamacchia aparece como o investidor mais avançado na disputa pela nova SAF do Vasco.
A proposta apresentada por seu grupo funciona como referência mínima para o processo competitivo, mas a autorização judicial permite que outros investidores apresentem ofertas.
Caso surjam propostas concorrentes dentro das condições previstas no edital, o processo seguirá as regras estabelecidas judicialmente para definição do vencedor.
Lamacchia já mantém relação financeira com o Vasco por meio da Almirante Participações. A companhia participou anteriormente de um financiamento DIP de aproximadamente R$ 40 milhões líquidos, cujos recursos, segundo manifestação apresentada pelo clube à Justiça, já haviam sido utilizados integralmente.
Justiça também autoriza novo financiamento de até R$ 150 milhões
Além do avanço na venda da SAF, outro ponto importante é a autorização para um novo financiamento na modalidade DIP, ou Debtor-in-Possession, de até R$ 150 milhões.
Esse tipo de operação é utilizado por empresas em recuperação judicial para obter recursos destinados à manutenção das atividades enquanto reorganizam suas dívidas.
Antes da liberação, o empréstimo havia sido travado pela Justiça, que solicitou esclarecimentos sobre a situação financeira da SAF e as projeções apresentadas pelo clube. Administração Judicial, Watchdog e Gatekeeper posteriormente deram parecer favorável à operação, destacando a necessidade de recomposição do caixa.
A recomendação, contudo, estabelece que os R$ 150 milhões não sejam necessariamente liberados de uma única vez. Os desembolsos devem acompanhar as necessidades efetivas de caixa e permanecer sob fiscalização.
Acordo com a 777 removeu um obstáculo importante
Outro fator que ajudou a destravar o processo foi o acordo firmado entre Vasco e 777 Carioca LLC, empresa ligada à antiga controladora da SAF.
A 777 informou formalmente à Justiça que não se opõe à criação da nova SAF, à transferência dos ativos esportivos, à formação da UPI Equity e à venda judicial de 90% do capital da nova empresa.
O entendimento encerrou uma fonte relevante de incerteza jurídica que cercava a reestruturação do futebol vascaíno.
Na prática, o modelo busca permitir que os ativos esportivos sejam reorganizados em uma nova estrutura societária enquanto as obrigações financeiras são tratadas dentro do processo de recuperação judicial.
O que acontece agora com a SAF do Vasco
A data de 25 de setembro passa a ser o próximo grande marco do processo.
Até a audiência, investidores que cumprirem as exigências previstas no edital poderão participar do processo competitivo. A proposta de Lamacchia permanece como referência para a operação, mas o procedimento judicial abre espaço formal para concorrentes.
Mais do que uma simples troca de controlador, o desfecho poderá definir a capacidade financeira do Vasco para equacionar dívidas, financiar o futebol, cobrir déficits operacionais e realizar investimentos estruturais nos próximos anos.
O tamanho dos compromissos envolvidos transforma o leilão da SAF em uma decisão com impacto direto no planejamento esportivo e financeiro de longo prazo do clube.
