As ligações com número falso, estratégia utilizada por criminosos para se passar por bancos, empresas e outras instituições, devem ficar cada vez mais difíceis no Brasil. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) está ampliando um sistema de autenticação capaz de verificar se o número exibido no celular realmente pertence à origem daquela chamada.
A mudança faz parte da implantação da tecnologia de autenticação e identificação de chamadas, associada ao serviço conhecido como Origem Verificada. A regulamentação estabelece implementação progressiva e prevê que a autenticação alcance todas as chamadas realizadas no país em um prazo de até três anos, chegando a uma adoção abrangente até 2028.
Isso não significa que os golpes telefônicos deixarão de existir completamente. A principal mudança é que ficará muito mais difícil utilizar uma das técnicas mais perigosas das fraudes atuais: falsificar o número que aparece na tela do consumidor.
O que é o golpe de spoofing?
A técnica é conhecida como spoofing. Na prática, criminosos manipulam a identificação da chamada para fazer com que outro número apareça no telefone da vítima.
Assim, uma ligação realizada por um golpista pode aparentemente ter origem em uma central bancária, empresa conhecida ou outro número utilizado para transmitir confiança.
Esse tipo de fraude representa um problema porque o consumidor pode acreditar que está realmente conversando com determinada instituição e acabar fornecendo dados pessoais, senhas, códigos de segurança ou informações financeiras.
A Anatel explica que a autenticação foi desenvolvida justamente para verificar tecnicamente a procedência da chamada e confirmar se o número apresentado corresponde efetivamente ao usuário que originou a ligação.
Como vai funcionar a Origem Verificada?
A tecnologia utiliza padrões internacionais conhecidos como STIR, SHAKEN e RCD.
O STIR é responsável pela autenticação da identidade do chamador, enquanto o SHAKEN organiza esse processo dentro das redes de telecomunicações. Já o RCD permite acrescentar informações extras sobre quem está ligando.
Quando a chamada estiver autenticada e o aparelho for compatível, poderão aparecer informações como:
- nome da empresa;
- número de telefone validado;
- selo de autenticação;
- indicação de “Número Validado”;
- logotipo da instituição;
- motivo da ligação, como cobrança, confirmação ou atendimento.
Isso pode ajudar o consumidor a diferenciar uma chamada autenticada de uma tentativa de falsificação do número.
Tecnologia já começou a funcionar no Brasil
Embora a expansão seja progressiva, o sistema não é apenas um projeto para o futuro.
Segundo a Anatel, a ferramenta de autenticação e identificação está disponível desde meados de 2025, inicialmente com adesão voluntária de empresas. O serviço Origem Verificada é implementado pela Autoridade de Identificação e Autenticação, com participação da ABR Telecom.
Em testes realizados antes da expansão comercial, mais de 13 bilhões de chamadas chegaram a ser autenticadas em ambiente controlado, segundo informações divulgadas pela Agência.
Paralelamente, a Anatel tornou obrigatória a adoção de autenticação para grandes originadores que realizam mais de 500 mil chamadas por mês, aumentando a pressão sobre empresas que trabalham com enormes volumes de ligações.
Quando as ligações deverão ser autenticadas?
A Resolução nº 777/2025, que aprovou o Regulamento Geral dos Serviços de Telecomunicações, estabeleceu prazo de até três anos para implementação da autenticação de chamadas em todo o país.
Com isso, a previsão regulatória aponta para 2028 como marco para que todas as chamadas no Brasil passem pelo padrão técnico de autenticação, incluindo ligações originadas por pessoas físicas.
A implantação será progressiva porque depende da adaptação das redes das operadoras, integração entre prestadoras, sistemas de certificação e compatibilidade dos aparelhos utilizados pelos consumidores.
Nem todos os celulares mostrarão todas as informações
Existe outro detalhe importante: mesmo quando a ligação é autenticada pela rede, nem todo telefone mostrará nome, logotipo e selo na tela.
Segundo a Anatel, o consumidor precisa estar utilizando um smartphone compatível com redes 4G ou 5G, ter o VoLTE ativado e manter o sistema operacional atualizado.
Aparelhos conectados apenas às redes 2G ou 3G poderão continuar recebendo chamadas normalmente, mas sem os recursos avançados de identificação.
A experiência também varia conforme o aparelho. Modelos Samsung mais recentes, por exemplo, podem apresentar nome, número, selo, logomarca e motivo da chamada, enquanto outros dispositivos podem exibir apenas parte dessas informações.
Medida não elimina todos os golpes
Apesar do avanço, uma chamada autenticada não significa que o consumidor possa abandonar os cuidados de segurança.
O sistema confirma principalmente a origem do número, dificultando que um criminoso se apresente utilizando indevidamente o telefone de outra instituição.
Golpistas, entretanto, ainda podem utilizar engenharia social, números próprios, aplicativos de mensagens e outras estratégias para tentar enganar as vítimas.
Também é importante lembrar que, durante o período de implementação, chamadas legítimas ainda poderão aparecer sem identificação especial. A própria Anatel informa que uma ligação sem selo não deve ser automaticamente considerada fraudulenta.
Como evitar golpes enquanto o sistema é ampliado?
Ao receber uma ligação inesperada envolvendo dinheiro, contas bancárias ou informações pessoais, a recomendação continua sendo evitar decisões imediatas.
Senhas bancárias, códigos de autenticação recebidos por SMS e informações de acesso a aplicativos não devem ser fornecidos durante uma chamada.
Em caso de dúvida, o consumidor pode desligar e entrar em contato novamente com a instituição utilizando o aplicativo oficial, o número disponibilizado no cartão ou outro canal confirmado.
A autenticação das chamadas representa uma barreira adicional contra fraudes, mas a atenção do consumidor continuará sendo fundamental mesmo após a expansão prevista para 2028.
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