O endividamento das famílias brasileiras permaneceu em um patamar historicamente elevado em agosto. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram que 82% das famílias tinham algum tipo de dívida a vencer, repetindo o recorde registrado em julho.
O percentual representa o sétimo mês consecutivo em nível recorde e está acima dos 78,8% verificados em agosto do ano passado. Ao mesmo tempo, a inadimplência voltou a aumentar, indicando que uma parcela maior dos consumidores está encontrando dificuldade para manter os pagamentos em dia.
Inadimplência volta a crescer
A proporção de famílias com contas ou dívidas em atraso passou de 29,8% em julho para 29,9% em agosto. Embora a variação mensal seja pequena, o movimento interrompe a melhora observada anteriormente e ocorre em um cenário de elevado comprometimento da renda.
Também cresceu a parcela de brasileiros que afirmam não possuir condições de quitar as contas atrasadas. O indicador chegou a 12,5%, maior nível desde fevereiro. Já o grupo que se considera “muito endividado” avançou para 17,4%.
É importante diferenciar endividamento de inadimplência. Uma família pode possuir financiamento, parcelamento ou compras no cartão e continuar pagando normalmente. A inadimplência aparece quando essas obrigações deixam de ser quitadas dentro do prazo.
Baixa renda concentra maior pressão financeira
Os números mostram que o problema é significativamente mais intenso entre os brasileiros que recebem até três salários mínimos.
Nessa faixa, 85,1% das famílias estavam endividadas em agosto, enquanto a parcela com contas atrasadas passou de 38,5% para 38,8%.
O grupo também registrou aumento na quantidade de consumidores que afirmam não ter condições de pagar os débitos vencidos: o percentual subiu de 17,8% para 18,3%. Foi a única faixa de renda a registrar aumento da inadimplência no mês.
A diferença em relação aos consumidores de maior renda é expressiva. Entre famílias que recebem acima de dez salários mínimos, 72,3% estavam endividadas, mas a inadimplência ficou em 14,9%.
Quase 20% comprometem mais da metade da renda
Outro indicador reforça o aperto no orçamento doméstico. Em agosto, 19,2% das famílias disseram utilizar mais de metade de toda a renda mensal apenas para pagar dívidas, maior proporção desde março.
Na média geral, o comprometimento da renda permaneceu em 29,5%. Isso significa que praticamente três de cada dez reais recebidos pelas famílias endividadas estão vinculados ao pagamento de compromissos financeiros.
O cenário reduz o espaço disponível para gastos essenciais, formação de reserva de emergência e absorção de despesas inesperadas.
Dívidas estão ficando mais longas
A pesquisa também identificou um alongamento dos compromissos financeiros. A parcela de famílias com dívidas contratadas por períodos superiores a um ano chegou a 33,4%.
Mesmo com prazos maiores, porém, os atrasos aumentaram. O tempo médio das contas vencidas passou para 65 dias, interrompendo uma sequência de três meses de melhora.
Entre os consumidores inadimplentes, 29,1% acumulavam débitos vencidos entre 30 e 90 dias.
Situação muda conforme a renda
Nas demais faixas de rendimento, alguns indicadores apresentaram melhora.
Entre famílias que recebem de três a cinco salários mínimos, o endividamento caiu de 85,1% para 83,7%, enquanto 28% tinham contas atrasadas.
No grupo com renda entre cinco e dez salários mínimos, o endividamento recuou para 77,2%, e a inadimplência caiu para 20,3%.
Já entre quem recebe acima de dez salários mínimos, o endividamento subiu levemente para 72,3%, mas a inadimplência recuou para 14,9%.
CNC prevê pressão sobre contas atrasadas
A CNC avalia que o maior comprometimento da renda e o aumento do tempo de atraso podem levar a uma nova elevação da inadimplência nos próximos meses.
Para as famílias, o cenário exige atenção principalmente sobre dívidas de custo elevado e gastos recorrentes financiados por crédito. Quanto maior a parcela da renda comprometida mensalmente, menor tende a ser a capacidade de absorver aumentos de despesas ou imprevistos sem recorrer a novos empréstimos.
Os números de agosto mostram, portanto, que a estabilidade do índice geral em 82% não significa melhora financeira: enquanto o volume de famílias endividadas parou de crescer no mês, aumentou a dificuldade de uma parcela dos brasileiros em manter as contas em dia.
